A partir da ideia de que o narrador rosiano articula num mesmo tecido poético o visível e o invisível, o que “não havia” e o que “acontecia”, a tese de Sofia Morabito encaminha se para a caracterização de uma realidade ficcional “acrescida”, “obtida através da sobreposição do real objectivo com o irreal / /mágico (ou do verosímil com o inverosímil)”. Com esse gesto, abre a porta a micro-leituras particularmente sugestivas de momentos de ambiguidade e dúvida no texto rosiano, acompanhando conto a conto a manutenção de zonas cinzentas e pontos instáveis da narração que chamam a atenção para as estratégias do narrador de cada estória, ao mesmo tempo deslocando a leitura rosiana de dicotomias que já são habituais na sua recepção crítica – histórico/ /simbólico, local/universal – em direcção a uma tradição crítica poucas vezes invocada a propósito da sua obra.
"Doutorada em Literatura Portuguesa e Brasileira na Universidade de Pisa (Doutoramento Internacional), Sofia Morabito debruçou-se sobre a literatura contemporânea portuguesa (Ruben A., Sophia de Mello Breyner, etc.), brasileira (Guimarães Rosa) e africana (Pepetela). Dedica-se também à tradução, área na qual ganhou o primeiro Prémio Claris Appiani (2019) de tradução literária pela sua versão de Fidalgo Aprendiz, em co-autoria com Valeria Tocco. Durante o período relativo à bolsa de investigação estudou as traduções castelhanas da Imagem da vida cristã de Frei Heitor Pinto. Atualmente colabora no ensino da literatura
portuguesa na Universidade de Pisa."