Aves Socorrem um Coração de Cinza
aves socorrem um coração de cinza // procuras no céu o que é da terra para sempre // os que fazem e os que deixam fazer ninguém é inocente // seria melhor sem escravidão // sem a revoada dos insaciáveis e dos famintos // o enxofre dos seus hálitos as suas pérolas // os céus seriam antigos e bons como nunca houve // agora os dias é rolar com eles // mãos cheias de promessas e de amoras // licores correndo em cima em baixo // aguada de aguarela // às dobras da galáxia às nervuras abaixo do húmus // sedentos os lábios dão o lume à noite // o flash aos fruitos e aos astros // e é isto na estrada // o traço vai contínuo e o amor de asas cansadas // ainda assim esvoaça // ser o que for sem o lamento do coração que levas // um coração de cinza // então à sorte as aves // cada uma quase no mesmo grau de pureza // entram inteiras nos olhos // de um modo que não vem a neve // a leveza da pequena lavandisca pousada no rio // a garça por conveniência na margem // o pato subindo rasteiro da água // o falcão do alto fisgando a rola // entraram nos olhos e saem // sem miséria sem vergonha sem enigma
Abel Neves nasceu em Montalegre, em 1956. Tem uma obra vasta, compreendendo peças de teatro (Amadis, Touro, Terra, Amo-te, Atlântico, Finisterrae, Arbor Mater, Lobo-Wolf, El Gringo, Inter-Rail, Além as estrelas são a nossa casa, Supernova, Fénix e Kota-Kota, A Caminho do Oeste, Amor-Perfeito, Olhando o céu estou em todos os séculos, Provavelmente uma pessoa, Nunca estive em Bagdad, Madressilva, Qaribó, Ubelhas - Mutantes e Transumantes, Vulcão, Querido Che), romances (Corações piegas, Cotovia, 1996; Asas para que vos quero, Cotovia, 1997; Sentimental, Asa, 1999; Centauros - imagens são enigmas, Asa, 2000; Precioso, Dom Quixote, 2006; Cornos da Fonte Fria, Sextante 2007), poesia (Eis o amor a fome e a morte, Cotovia, 1998) e um ensaio que apresenta reflexões em volta do teatro (Algures entre a resposta e a interrogação, Cotovia, 2002).

















