Epílogo
Epílogo reúne grande parte da obra poética de José Agostinho Baptista, que para esta edição fez alterações importantes aos seus livros e eliminou três deles.
Nas palavras do autor: «Talvez a vida das palavras, essa respiração de alguns, esse sopro às vezes tão alto sobre a descoloração dos dias, esse assombro que nos sacode por dentro sem peso nem medida, essa já longa existência de papel estremecido, entre fogo e gelo, entre tudo e nada, talvez essa vida ameaçada pelo verbo tão cioso das suas armas conduza ao excesso e à voragem e então um homem, aquele que escreve, aquele que se atira às chamas e acorda sobre as cinzas, aquele que pensou em silêncio, inclinando a fronte sobre a febril brancura de uma página, povoando-a de sinais puros ou equívocos, de inocências e segredos e enigmas e nostalgias, sempre ao ritmo de um coração fundo, batendo depressa ou batendo devagar, talvez esse homem pare de repente, no meio de uma dor ou de uma insónia e, hesitando ao contemplar a árdua sucessão de décadas e de livros que as atravessam, assuma dúvidas e inquietações e acabe por, bem ou mal, cortar aqui, reduzir ali, alterar ou apagar além, como um jardineiro sábio mas tímido que aperfeiçoasse pela última vez a geometria e as cores do seu jardim.»
| Editora | Assírio & Alvim |
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| Categorias | |
| Editora | Assírio & Alvim |
| Negar Chronopost e Cobrança | Não |
| Autores | José Agostinho Baptista |
José Agostinho Baptista (Funchal, Madeira, 15 de agosto de 1948) é um poeta português contemporâneo. Foi assíduo colaborador da imprensa escrita, particularmente no Comércio do Funchal e mais tarde em A República e no Diário de Lisboa, cujo suplemento «O Juvenil» o deu a conhecer como poeta. Desde então e ao longo dos livros entretanto publicados, a sua poesia tem sido reconhecida como uma das mais originais e importantes da atualidade em língua portuguesa, como bem assinalaram os estudos que lhe foram dedicados em Portugal, Espanha, França e Itália. Simultaneamente, José Agostinho Baptista tem vindo a traduzir para português autores como Walt Whitman, W.B. Yeats, Tennessee Williams, Paul Bowles, Rabindranath Tagore, Sergio Pitol, David Malouf, Malcolm Lowry e Enrique Vila-Matas, entre outros. Foi condecorado pelo Presidente da República com as insígnias de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, a 1 de julho de 2001, e pelo Presidente do Governo Regional da Madeira, Miguel Albuquerque, com a Medalha de Distinção, a 1 de julho de 2015.
Grande parte da sua obra foi publicada na Assírio & Alvim: Deste lado Onde (1976), O Último Romântico (1981), Morrer no Sul (1983), Auto-retrato (1986), O Centro do Universo (1989), Paixão e Cinzas (1992), Canções da Terra Distante (1994), Agora e na Hora da Nossa Morte (1998), Biografia (2000), Afectos (2002), Anjos Caídos (2003), Esta Voz é Quase o Vento (2004), Quatro Luas (2006), Além-Mar, áudio-livro (2007), Filho Pródigo (2008), O Pai, a Mãe e o Silêncio dos Irmãos (2009), Caminharei pelo Vale da Sombra (2011).
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Deste Lado OndeNunca mais sossegou a minha vida. ainda me perturbam todos os nomes e as regiões (agora desabitadas gente que vi partir deixando o olhar parado (à volta nas encostas e nos telhados vermelhos gente perdida nas altas escarpas do norte e no passado interminável os barcos chegaram há pouco quando anoitecia. -
Morrer no Sul[...]Era em San Antonio,era ela a flor do deserto e dançava,doce trompete.Eu estava lá,eu esquecia tudo:a mágoa e o amor,a idade dos crepúsculos,o crepúsculo dentro de mim.Raras eram as árvores da praça.A meio podia ver-se o coreto.Ao domingo vinham os músicos, de branco emorenos como as tardes do sul,bêbados como as terras do sul. -
Canções da Terra DistanteMADALENA DO MARPartiram pela noite e já não pude amá-los.Agorao mar devolve à praia um leme, remos, lãs do norte em despedaçados fios, três rostos de uma cor sombria.Hoje o mar é negro e frio.Os xailes são negros e frios sobre os ombros das mães.Elas olham sem ver este rosto ainda belo, onde, outrora, existiu um estremecimentos de lírios.Os lábios do meu amado diziam a última prece e era como se cantasse.Ele fechou os olhos.Nas suas pálpebras embranquecia o sal.Os peixes batiam nas tábuas e era uma canção demente a canção das guelras sufocando.Na crueldade das manhãs, na linha do horizonte, ele já não vê um veleiro navegando para o mundo.O luto veste as suas pedras.A anémona adquire os traços da monstruosidade.Na sua garganta um anzol de aço resplandece, depois da chuva.Será isto a morte?[...] -
Agora e na Hora da Nossa MorteBUSCADurante anos os procurei,um amor, um lugar,um sonho de casas eternas,um cais de outrora quando se acendiam aslâmpadas,durante anos te procurei,caminhante das estrelas solitárias, dasestrelas sem nome,brilhando sobre as ilhas, sabe-se lá onde,em que oceanos que levaste contigo,no grande eclipse desta vida. -
Biografia«"O Poema ensina a cair" escreveu Luiza Neto Jorge. O poema que nos leva por vezes por caminhos impraticáveis, ao ponto de os percursos se preencherem com o sangue das vivências pessoais e a poesia entretecer uma sede que se agarra às fontes dos dias, vestindo por dentro a vida e deixando o exterior às barcas inconformadas, navegando incessantemente devido à escassez de portos. Serve isto para compreender o livro de José Agostinho Baptista, que por justificadas razões se chama Biografia. Este livro contém uma vida de sonhos, alegrias, depressões, delírios geográficos e afectivos, nostalgias várias e febris, paisagens exóticas levantadas de soalhos defeituosos, viagens imaginárias de demanda e encantamento, sofrimentos no mais fundo da escuridão, e sempre o sentido colectivo da festa, da partilha, da cumplicidade da busca e do delicado disfarce, e também de uma grande solidão. Mas convém dizer que a obra de José Agostinho Baptista, hoje reunida num volume de quase setecentas páginas, teve de caminhar por conta própria, só e autónoma, à margem da crítica e do consenso poético predominante e mais ou menos escolar. Por persistência e, neste caso também, cumplicidade editorial, ao longo de mais de vinte anos, José Agostinho Baptista foi construindo pacientemente a sua obra. Alguns livros foram simplesmente ignorados pela crítica, na época tão eficaz nas suas deslocações e imposições do gosto. Desde o Juvenil, do saudoso Diário de Lisboa, até ao livro, finalmente triunfante, Agora e na Hora da Nossa Morte que o poeta construiu uma obra contra o gosto dominante. Na altura, a emoção, a poesia vivencial e onírica não estavam na moda, diziam-na naïf ou feita de emoções primárias, pouco intelectualizadas e nada conforme aos padrões internacionais. Curiosamente hoje, José Agostinho Baptista pode orgulhar-se de uma obra pessoalíssima no universo da mais recente poesia portuguesa e no melhor da sua tradição. Paradoxalmente, a crítica vem reconhecendo o seu valor emocional e estético.José Agostinho Baptista é um grande poeta no sentido mais completo do termo. Avesso a associações, grupos, tertúlias ou recitais, continua a deambular nocturnamente pela cidade, a beber e a conversar como um vulgar cidadão cuja inquietação, busca e sonho de cidades imaginárias, os transatlânticos, prontos a partir, agitam como uma bandeira içada em alto mastro. E essa bandeira é a poesia, que agora podemos ler, corrigida e aperfeiçoada num volume para saborear e guardar, com o mesmo cuidado e prazer que aplicamos à rememoração dos melhores sonhos.»Manuel Hermínio Monteiro, no número 81 da publicação A Phala. -
Anjos CaídosRECOMEÇORecomeço a partir de muito pouco,nesta margem onde a areia, húmida esombria, erguida do sono,se esvai por entre os meus dedos perdidos.Recomeço a partir de uma única palavra,de um ínfimo sinal que vi gravado nosmuros da tua cidade em ruínas.Aí, nessa cal desaparecida,vi, um dia, um pássaro imóvel, quase vivo,com os olhos trespassados pelas agulhas do tempo,inclinar-se e cair sobre as pedras mudas,e esse pássaro eras tu,ferida de morte,afastando as lágrimas em vão. -
Esta Voz é quase o Vento"Penso sempre no seu trono de jóias raras, sob as árvores frondosas,e procuro a sua mão sobre a minha fronte,sobre o meu pensamento de casas puras.Já não tenho casa.Fiz do desabrigo um imenso campo de anis eflores altas.A minha cama é essa planície onde os animais se deitam, sem pensar em nada.Por isso não quero a mentira dos povos, asestátuas de bronze,as armas brancas atrás das costas.Quero um barco de papel, um espelho deágua, um lago.Mais nada." -
Quatro LuasCREPÚSCULOQueima tudo, incendeia-me mais.Beija os vastos desertos da minha combustão.Não digas nada.Ao crepúsculo, conduz-me ao redil, faz soar os guizos, canta junto ao moinho de vento. -
Além-MarPoesia de José Agostinho Baptista, escolhida e lida por António Cardoso Pinto. A leitura dos poemas é entrecortada por breves trechos musicais escolhidos pelo poeta. "Este livro é dedicado a essas vagas luzes queanunciam a alegriae às vezes são alguém, um anjo, o caos, e nomeio do caoso jovem doce tempo das tuas mãos.És tu,coração secreto à deriva pelos dias, o senhor domeu canto.Por ti cheguei e parto.A minha casa é onde estás." -
Caminharei pelo Vale da SombraNos tímpanos, como um acorde desmedido, a cava respiração dos desertos assola-te. Contorces-te, quando me aproximo, e benditos são os frutos do teu ventre, no oásis onde amadurecem. Mas não temos tempo. Envelhecemos, vamos e voltamos, e ao irmos e virmos, somos a errância dos pés, entregues à sua mecânica, indiferentes aos pesares, desfalecendo, retomando a marcha, a estrada tantas vezes percorrida por uns olhos abertos que já não vêem, tão habituados a reter nas suas órbitas as paisagens do desalento.
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NovidadeTal como És- Versos e Reversos do RyokanAntologia poética do monge budista Ryokan, com tradução a partir do original japonês. -
Novas Cartas Portuguesas«Reescrevendo, pois, as conhecidas cartas seiscentistas da freira portuguesa, Novas Cartas Portuguesas afirma-se como um libelo contra a ideologia vigente no período pré-25 de Abril (denunciando a guerra colonial, o sistema judicial, a emigração, a violência, a situação das mulheres), revestindo-se de uma invulgar originalidade e actualidade, do ponto de vista literário e social. Comprova-o o facto de poder ser hoje lido à luz das mais recentes teorias feministas (ou emergentes dos Estudos Feministas, como a teoria queer), uma vez que resiste à catalogação ao desmantelar as fronteiras entre os géneros narrativo, poético e epistolar, empurrando os limites até pontos de fusão.»Ana Luísa Amaral in «Breve Introdução» -
Primeiros Trabalhos - 1970-19791970-1979 é uma selecção feita pela autora, da sua escrita durante esse mesmo período. Uma parte deste livro são trabalhos nunca publicados, onde constam excertos do seu diário, performances e notas pessoais. A maioria dos textos foram publicados ao longo da década de setenta, em livros que há muito se encontram esgotados, mesmo na língua original.“Éramos tão inocentes e perigosos como crianças a correr por um campo de minas.Alguns não conseguiram. A alguns apareceram-lhes mais campos traiçoeiros. E algunsparece que se saíram bem e viveram para recordar e celebrar os outros.Uma artista enverga o seu trabalho em vez das feridas. Aqui está então um vislumbredas dores da minha geração. Frequentemente bruto, irreverente—mas concretizado,posso assegurar, com um coração destemido.”-Patti SmithPrefácio de Rafaela JacintoTradução de cobramor -
NovidadeNocturamaOs poemas são a exasperação sonhada As palavras são animais esquivos, imprecisos e noturnos. É desse pressuposto que Nocturama lança mão para descobrir de que sombras se densifica a linguagem: poemas que se desdobram num acordeão impressionante, para nos trazerem de forma bastante escura e às vezes irónica a suprema dúvida do real. -
Obras Completas de Maria Judite de Carvalho - vol. I - Tanta Gente, Mariana - As Palavras PoupadasA presente coleção reúne a obra completa de Maria Judite de Carvalho, considerada uma das escritoras mais marcantes da literatura portuguesa do século XX. Herdeira do existencialismo e do nouveau roman, a sua voz é intemporal, tratando com mestria e um sentido de humor único temas fundamentais, como a solidão da vida na cidade e a angústia e o desespero espelhados no seu quotidiano anónimo.Observadora exímia, as suas personagens convivem com o ritmo fervilhante de uma vida avassalada por multidões, permanecendo reclusas em si mesmas, separadas por um monólogo da alma infinito.Este primeiro volume inclui as duas primeiras coletâneas de contos de Maria Judite de Carvalho: Tanta Gente, Mariana (1959) e As Palavras Poupadas (1961), Prémio Camilo Castelo Branco. Tanta Gente, Mariana «E a esperança a subsistir apesar de tudo, a gritar-me que não é possível. Talvez ele se tenha enganado, quem sabe? Todos erram, mesmo os professores de Faculdade de Medicina. Que ideia, como havia ela de se enganar se os números ali estavam, bem nítidos, nas análises. E no laboratório? Não era o primeiro caso? Lembro-me de em tempos ter lido num jornal? Qual troca! Tudo está certo, o que o médico disse e aquilo que está escrito.» As Palavras Poupadas (Prémio Camilo Castelo Branco) «- Vá descendo a avenida - limita-se a dizer. - Se pudesse descer sempre - ou subir - sem se deter, seguir adiante sem olhar para os lados, sem lados para olhar. Sem nada ao fim do caminho a não ser o próprio fim do caminho. Mas não. Em dado momento, dentro de cinco, de dez minutos, quando muito, terá de se materializar de novo, de abrir a boca, de dizer «vou descer aqui» ou «pare no fim desta rua» ou «dê a volta ao largo». Não poderá deixar de o fazer. Mas por enquanto vai simplesmente a descer a avenida e pode por isso fechar os olhos. É um doce momento de repouso.» Por «As Palavras Poupadas» vai passando, devagar, o quotidiano anónimo de uma cidade, Lisboa, e dos que nela vivem. type="application/pdf" width="600" height="500"> -
Um Inconcebível AcasoNo ano em que se celebra o centenário de Wisława Szymborska, e coincidindo com a data do 23º aniversário da atribuição do prémio Nobel à autora, as Edições do Saguão e a tradutora Teresa Fernandes Swiatkiewicz apresentam uma antologia dos seus poemas autobiográficos. Para esta edição foram escolhidos vinte e seis poemas, divididos em três partes. Entre «o nada virado do avesso» e «o ser virado do avesso», a existência e a inexistência, nesta selecção são apresentados os elementos do que constituiu o trajecto e a oficina poética de Szymborska. Neles sobressai a importância do acaso na vida, o impacto da experiência da segunda grande guerra, e a condição do ofício do poeta do pós-guerra, que já não é um demiurgo e, sim, um operário da palavra que a custo trilha caminho. Nos poemas de Wisława Szymborska esse trajecto encontra sempre um destino realizado de forma desarmante entre contrastes de humor e tristeza, de dúvida e do meter à prova, de inteligência e da ingenuidade de uma criança, configurados num território poético de achados entregues ao leitor como uma notícia, por vezes um postal ilustrado, que nos chega de um lugar que sabemos existir, mas que muito poucos visitam e, menos ainda, nos podem dele dar conta. -
Horácio - Poesia CompletaA obra de Horácio é uma das mais influentes na história da literatura e da cultura ocidentais. Esta é a sua versão definitiva em português.Horácio (65-8 a.C.) é, juntamente com Vergílio, o maior poeta da literatura latina. Pela variedade de vozes poéticas que ouvimos na sua obra, estamos perante um autor com muitos rostos: o Fernando Pessoa romano. Tanto a famosa Arte Poética como as diferentes coletâneas que Horácio compôs veiculam profundidade filosófica, mas também ironia, desprendimento e ambivalência. Seja na sexualidade franca (censurada em muitas edições anteriores) ou no lirismo requintado, este poeta lúcido e complexo deslumbra em todos os registos. A presente tradução anotada de Frederico Lourenço (com texto latino) é a primeira edição completa de Horácio a ser publicada em Portugal desde o século XVII. As anotações do professor da Universidade de Coimbra exploram as nuances, os intertextos e as entrelinhas da poética de Horácio, aduzindo sempre que possível paralelo de autores portugueses (com destaque natural para Luís de Camões e Ricardo Reis).
