Nikolai Gógol
"Nikolai Gogol, o mais estranho poeta prosador que jamais produziu a Rússia, morreu numa quinta-feira de manhã, um pouco antes das oito horas, em 4 de Março de 1852, em Moscovo. Tinha quase quarenta e três anos, uma idade razoavelmente madura, considerando o tempo de vida ridiculamente curto que em geral coube a outros grandes escritores russos desta geração miraculosa. O esgotamento físico total resultante duma greve da fome voluntária (com a qual a sua melancolia mórbida tentara opor-se aos desígnios do Diabo) culminou numa anemia aguda do cérebro (associada, provavelmente, a uma gastroenterite devida à inanição) e o tratamento de purgas e sangrias vigorosas a
que foi submetido apressou a morte dum organismo já gravemente diminuído pelas sequelas da malária e da má alimentação. Os dois médicos, duma energia diabólica, e que insistiam em tratá-lo como se fosse um simples lunático, para grande alarme dos seus mais inteligentes mas menos activos confrades, queriam debelar a insanidade do paciente antes de tentar remendar o que ainda lhe restasse de saúde corporal. Uns quinze anos antes, Puchkin, com uma bala nas entranhas, recebera cuidados médicos que seriam bons para uma criança com prisão de ventre. Os praticantes de medicina geral alemães e franceses de segunda categoria ainda dominavam a cena, pois a esplêndida escola dos grandes médicos russos ainda estava a formar-se."
(excerto do início da obra)
| Editora | Assírio & Alvim |
|---|---|
| Coleção | Testemunhos |
| Categorias | |
| Editora | Assírio & Alvim |
| Negar Chronopost e Cobrança | Não |
| Autores | Vladimir Nabokov |
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O Dom"Retrato, entre outras coisas, do artista enquanto jovem, o último romance que Vladimir Nabokov escreveu em russo, O Dom, é considerado por muitos um dos maiores romances russos – e anglo-saxónicos – do século XX. Tem, no centro do seu puzzle narrativo, a literatura russa do século XIX, Púchkin, Gógol, Tchékhov, a par da visualização nabokoveana do processo criativo e da afirmação do talento artístico, da peregrinação urbana e do monólogo joyceano, do maléfico jogo de espelhos borgeano da realidade e da ficção, da sedução duma autenticamente moderna história de amor, do pessoano trauma dos mundos perdidos, etc… A primeira leitura transforma-se rapidamente em releitura, porque, como também disse Vladimir Nabokov, o leitor não é um carneiro e nem todas as penas o tentam."Carlos Leite -
Opiniões Fortes"Penso como um génio, escrevo como um autor distinto e falo como uma criança. Ao longo da minha ascensão académica na América, de pobre leitor a professor catedrático, nunca dei ao anfiteatro a mais pequena migalha de informação que não tivesse sido dactilografada previamente e que não estivesse à frente dos meus olhos, pousados na estante de leitura fortemente iluminada. Ao telefone, as minhas tosses e hesitações fazem com que os interlocutores que me chamam de longa distância mudem do seu inglês nativo para um francês patético. Em festas, se tento divertir os outros com uma boa história, tenho de voltar atrás frase sim frase não para fazer emendas ou inserções orais. Mesmo o sonho que descrevo à minha mulher à mesa do pequeno-almoço é apenas um primeiro rascunho.Nestas circunstâncias, ninguém deveria pedir-me que me sujeitasse a uma entrevista, se por "entrevista" entendermos uma conversa entre dois seres humanos normais. Tal coisa foi tentada pelo menos duas vezes, em tempos idos, e numa dessas vezes havia uma máquina de gravar, e quando passámos a fita e eu acabei de me rir, soube que nunca mais na minha vida repetiria esse tipo de experiência. Hoje tomo todas as precauções para assegurar um abanar digno do leque do mandarim. As perguntas do entrevistador devem ser-me enviadas por escrito, ser respondidas por mim por escrito e reproduzidas verbatim. Estas são as três condições absolutas.[…]"Vladimir Nabokov, no prefácio a este livro. -
Convite para uma Decapitação“Na sociedade em que Cincinnatus C. vive existe um crime nefando, capital, a “torpeza gnóstica”, passível da pena de morte. Em Convite para uma Decapitação, Cincinnatus C. é julgado em tribunal por “torpeza gnóstica” e condenado à morte e nós somos convidados a acompanhá-lo durante os dias (quantos? nunca os seus algozes lho comunicarão) que antecedem a sua execução na praça pública, à qual também assistimos. O crime de “torpeza gnóstica”, crime obscuro e insondável entre todos os crimes, mas tipificado na lei naquela sociedade, é próprio das naturezas que não se conformam e não sabem com o que deveriam conformar-se, nem que são não conformes no seu comportamento. Resta-lhes a evasão pela imaginação, mas esta exige partilha, cúmplices, para existir. E este é o convite de Vladimir Nabokov: leitores procuram-se.”Carlos Leite -
LolitaEsta é uma das obras mais conhecidas e controversas do século XX e conta a história de Humbert Humbert, um professor universitário enfadonho e de meia-idade. A sua obsessão por Lolita de 12 anos suscita algumas dúvidas relativamente ao seu carácter: estará ele apaixonado ou tratar-se-á de um louco? Um poeta eloquente ou um pervertido? Uma alma torturada e sofrida ou um monstro? Ou será que Humbert Humbert não será apenas uma mistura de todas estas personagens?Lolita é certamente o romance mais conhecido de Nabokov, mas também por se tratar de uma obra-prima que provocou, à data da sua publicação, um enorme escândalo pela forma como o autor tratava o tema de uma paixão entre um homem maduro e uma adolescente provocante.Hoje, que essa aura de escândalo parece ter-se dissipado, o livro, publicado originalmente em 1955, vale por aquilo que é: um verdadeiro clássico da literatura do século XX.«A única, verdadeiramente convincente, história de amor do nosso século.»Vanity Fair«Intensamente lírica e incrivelmente divertida.»Time«Lolita é divertida, subversiva e aos mesmo tempo divinal »Martin Amis, The Observer«Vladimir Nabokov foi um dos mais imaginativos e realizados escritores do século.»The New York Times -
O Original de LauraO autor de Lolita retoma aqui alguns dos elementos que fizeram o sucesso do seu mais célebre romance. O Dr. Philip Wild, um homem brilhante, inteligente, rico e volumoso, é frequentemente humilhado pela sua mulher a jovem, elegante e promíscua Flora. Num romance uma obra-prima de enlouquecer, que documenta as suas infidelidades, escrito por um dos seus amantes e dado ao doutor seu marido, ela aparece como a minha Laura. Desonrado, Wild ainda consegue encontrar prazer na vida entregando-se a uma auto-aniquilação virtual, começando por amputar os seus dedos dos pés. Ao sentir que não lhe seria possível terminar O Original de Laura, escrito num sofrimento horrível e com a perspectiva de uma morte próxima, Nabokov deu instruções para que o manuscrito fosse queimado depois da sua morte. Durante trinta anos, a mulher, e depois o filho Dmitri, debateram-se com a questão de cumprir ou não a vontade do escritor. Disponível pela primeira vez, este texto quase destruído é acompanhado por uma introdução de Dmitri Nabokov sobre o grande livro final do seu pai e da difícil decisão de o publicar. -
DesesperoUm monstro de auto-estima, que se delicia com os muitos e fascinantes aspectos da sua personalidade, Hermann Hermann talvez não seja pessoa para se levar muito a sério. Mas, um encontro casual com um homem que ele acredita ser o seu duplo, revela uma assustadora ruptura na sua natureza. Com um inconfundível estilo, já então, Nabokov conduz-nos por um mundo perturbante, cheio de um humor surpreendente e sem peias, dominado pela figura egoísta e sobranceira de um assassino que se vê a si próprio como um artista. Desespero é um dos primeiros romances de Nabokov. Escrito originalmente em russo, em Berlim, em 1932, foi publicado pela primeira vez em Paris por um revista de emigrados, em 1934. Em 1937, Nabokov traduziu-o ele próprio para inglês e publicou-o em Londres. Finalmente em 1965, fez uma profunda revisão do romance, como explica no seu prefácio. É a tradução dessa última versão que a Teorema agora publica. -
GlóriaMartin Edelweiss é um jovem russo, romântico e sonhador, que fugiu do seu país após a revolução. A mãe, anglófila muito rigorosa, manda-o estudar para Inglaterra, onde o jovem é acolhido por uma família de emigrados russos. Martin em breve é dominado pela paixão pela temperamental e inatingível Sonia, mas as suas tentativas para a conquistar revelam-se sempre infrutíferas. Para a impressionar, Martin imagina uma façanha heróica mas que se vem a revelar louca e desesperada Glória é um dos primeiros romances de Nabokov. Escrito em russo em Berlim, foi começado em maio e terminado no final de 1930, sendo publicado em 1932. Foi editado em inglês em 1971, traduzido pelo filho, Dmitri Nabokov, em colaboração com o próprio autor. É a tradução dessa versão que a Teorema agora apresenta. -
Lolita"«O romance mais melancólico, elegante e lírico de quantos li.»Javier Marías in Literatura e Fantasma«A única história de amor convincente do nosso século.»Vanity Fair -
Fogo PálidoUm romance irónico, literário em segundo grau e completamente intrigante.
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O Príncipe da Democracia - Uma Biografia de Francisco Lucas PiresNenhuma outra figura foi intelectualmente tão relevante para a afirmação da direita liberal em Portugal como Francisco Lucas Pires. Forjado numa família que reunia formação clássica e espírito de liberdade, tornou-se um constitucionalista inovador, um jurista criativo, um político de dimensão intelectual rara à escala nacional e europeia – e, acima de tudo, um cidadão inconformado com o destino de Portugal.Em O Príncipe da Democracia, Nuno Gonçalo Poças reconstitui o percurso e as ideias deste homem invulgar, cujo legado permanece em grande parte por cumprir, e passa em revista os seus sucessos e fracassos. O resultado é um livro que, graças à absoluta contemporaneidade do pensamento do biografado, nos ajuda a compreender as grandes questões que o país e a Europa continuam a enfrentar, mostrando-nos, ao mesmo tempo, uma elegância política difícil de conceber quando olhamos hoje à nossa volta.Mais do que um retrato elucidativo de Lucas Pires, que partiu precocemente aos 53 anos, este é um documento fundamental para responder aos desafios do futuro, numa altura em que o 25 de Abril completa meio século. -
A DesobedienteA dor e o abandono chegaram cedo à vida de Teresinha, a filha mais velha de um dos mais prestigiados médicos da capital e de uma mulher livre e corajosa, descendente dos marqueses de Alorna, que nas ruas e nos melhores salões de Lisboa rivalizava em encanto com Natália Correia. A menina que haveria de ser poetisa vê a morte de perto quando ainda mal sabe andar, sobrevive às depressões da mãe, chegando mesmo a comer uma carta para a proteger. É dura e injustamente castigada e as cicatrizes hão de ficar visíveis toda a vida, de tal modo que a infância e a adolescência de Maria Teresa Horta explicam quase todas as opções que tomou. Sobreviver ao difícil divórcio dos pais, duas figuras incomuns, com as quais estabeleceu relações impressionantes de tão complexas, foi apenas uma etapa.Mas quanto deste sofrimento a leva à descoberta da poesia? E quanto está na origem da voz ativista de uma jovem que há de ser uma d’As Três Marias, as autoras das famosas «Novas Cartas Portuguesas», e protagonistas do último caso de perseguição a escritores em Portugal, que recebeu apoio internacional de mulheres como Simone de Beauvoir e Marguerite Duras? A insubmissa, que se envolve por acaso com o PCP e mantém intensa atividade política no pré e no pós-25 de Abril; a poetisa, a mãe, a mulher que constrói um amor desmedido por Luís de Barros; a grande escritora a quem os prémios e condecorações chegaram já tarde (ainda que, em alguns casos, a tempo de serem recusados), entre outras facetas, é a Maria Teresa Horta que Patrícia Reis, romancista e biógrafa experimentada, soube escrever e dar a conhecer, nesta biografia, com a destreza e a sensibilidade que a distinguem. -
Emílio Rui VilarMemórias do país da ditadura e do alvor da democracia em Portugal. A vida de Emílio Rui Vilar atravessou as principais mudanças da segunda metade do século XX. Contado na primeira pessoa, um percurso fascinante pelo fim do regime de Salazar e Caetano e pela revolução de Abril.Transcrevendo entrevistas realizadas ao longo de vários meses, este livro recolhe o relato na primeira pessoa de uma trajetória que percorreu o início da contestação ao Estado Novo no meio universitário, a Guerra Colonial, a criação da SEDES, o fracasso da “primavera marcelista” e os primeiros anos do novo regime democrático saído do 25 de Abril, onde Emílio Rui Vilar desempenhou funções governativas nos primeiros três Governos Provisórios e no Primeiro Governo Constitucional. No ano em que se celebram cinco décadas de democracia em Portugal, este livro é um importante testemunho sobre dois regimes, sobre o fim de um e o nascimento de outro. -
Oriente PróximoCom a atual guerra em Gaza, este livro, Oriente Próximo ganhou uma premente atualidade. A autora, a maior especialista portuguesa sobre o assunto, aborda o problema não do ponto de vista geral, mas a partir da vida concreta das pessoas judeus, árabes e outras nacionalidades que habitam o território da Palestina. Daí decorre que o livro se torna de leitura fascinante, como quem lê um romance.Nunca se publicou nada em Portugal com tão grande qualidade. -
Savimbi - Um homem no Seu MartírioSavimbi foi alvo de uma longa e destrutiva campanha de propaganda, desinformação e acções encobertas de segurança com o objectivo de o desacreditar e isolar. Se não aceitasse o exílio ou a sujeição, como foi o objectivo falhado dessa campanha, o fim último era matá-lo, como aconteceu: premeditadamente! Para que a sua «morte em combate» não suscitasse empatia, foi como um chefe terrorista da laia de Bin Laden que a sua morte foi apresentada – artifício da propaganda que tirou partido da memória emocional recente dos atentados da Al Qaeda, na América. Julgado com honestidade, Savimbi nunca foi o «bandido» por que o fizeram passar. O manifesto apreço que personalidades de indiscutível clareza moral, como Mandela, tiveram por ele prova-o. O MPLA elegeu-o como adversário temido e quis apagá-lo do seu caminho! Não pelos crimes a que o associaram. O que o MPLA e o seu regime temiam eram as suas qualidades e carisma, a sua representatividade política e o prestígio externo que granjeara. Como outros grandes da História, Savimbi também tinha defeitos e cometia erros. Mas no deve e haver as suas qualidades eram preponderantes." -
Na Cabeça de MontenegroLuís Montenegro, o persistente.O cargo de líder parlamentar, no período da troika, deu-lhe o estatuto de herdeiro do passismo. Mas as relações com Passos Coelho arrefeceram e o legado que agora persegue é outro e mais antigo. Quem o conhece bem diz que Montenegro é um fiel intérprete da velha tradição do PPD, o partido dos baronatos do Norte. Recusou por três vezes ser governante e por duas vezes foi derrotado em autárquicas. Já fez e desfez alianças, esteve politicamente morto e ressuscitou. Depois de algumas falsas partidas chegou à liderança. Mas tudo tem um preço e é o próprio a admitir que se questiona com frequência: será que vale a pena? -
Na Cabeça de VenturaAndré Ventura, o fura-vidas.Esta é a história de uma espécie de Fausto português, que foi trocando aquilo em que acreditava por tudo o que satisfizesse a sua ambição. André Ventura foi um fura-vidas. A persona mediática que criou nasceu na CMTV como comentador de futebol. Na adolescência convertera-se ao catolicismo, a ponto de se tornar um fundamentalista religioso. Depois de ganhar visibilidade televisiva soube pô-la ao serviço da sua ambição de notoriedade. Passou pelo PSD e foi como candidato do PSD que descobriu que havia um mercado eleitoral populista e xenófobo à espera de alguém que viesse representá-lo em voz alta. Assim nasceu o Chega. -
Contra toda a Esperança - MemóriasO livro de memórias de Nadejda Mandelstam começa, ao jeito das narrativas épicas, in media res, com a frase: «Depois de dar uma bofetada a Aleksei Tolstói, O. M. regressou imediatamente a Moscovo.» Os 84 capítulos que se seguem são uma tentativa de responder a uma das perguntas mais pertinentes da história da literatura russa do século XX: por que razão foi preso Ossip Mandelstam na fatídica noite de 1 de Maio de 1934, pouco depois do seu regresso de Moscovo? O presente volume de memórias de Nadejda Mandelstam cobre, assim, um arco temporal que medeia entre a primeira detenção do marido e a sua morte, ou os rumores sobre ela, num campo de trânsito próximo de Vladivostok, algures no Inverno de 1938. Contra toda a Esperançaoferece um roteiro literário e biográfico dos últimos quatro anos de vida de um dos maiores poetas do século XX. Contudo, é mais do que uma narrativa memorialística ou biográfica, e a sua autora é mais do que a viúva mítica, que memorizou a obra proibida do poeta perseguido, conseguindo dessa forma preservar toda uma tradição literária. Na sua acusação devastadora ao sistema político soviético, a obra de Nadejda Mandelstam é apenas igualada por O Arquipélago Gulag. O seu método de composição singular, e a prosa desapaixonada com que a autora sonda o absurdo da existência humana, na esteira de Dostoievski ou de Platónov, fazem de Contra toda a Esperança uma das obras maiores da literatura russa do século XX.
